sexta-feira, 13 de abril de 2012

Triste história de um professor

É indubitável a correlação entre educação e política; quase sempre, uma relação negativa, em que o nível da corrupção política é inversamente proporcional ao nível educacional: quanto menos educação de qualidade para a população, mais políticos corruptos se assenhorando daquilo que seria "público".
Nesse sentido, reproduzimos, aqui, uma "carta aberta" do prof. Maurício Girardi, que já foi divulgada em vários espaços de comunicação pelo país. Acredito que será mais uma oportunidade de colocar em discussão a educação do pais e as consequências de sua pouca qualidade. O que passa em discutir o papel dos atores que contracenam nesse cenário complexo.

TRISTE HISTÓRIA DE UM PROFESSOR

Meu nome é Maurício Girardi. Sou Físico. Pela manhã sou vice-diretor no Colégio Estadual Piratini, em Porto Alegre , onde à noite leciono a disciplina de Física para os três anos do Ensino Médio. Pois bem, olha só o que me aconteceu: estou eu dando aula para uma turma de segundo ano. Era 21/06/11 e, talvez, “pela entrada do inverno”, resolveu também ir á aula uma daquelas “alunas-turista” que aparecem vez por outra para “fazer uma social”. Para rever os conhecidos.

Por três vezes tive que pedir licença para a mocinha para poder explicar o conteúdo que abordávamos.
Parece que estão fazendo um favor em nos permitir um espaço de fala. Eis que após insistentes pedidos, estando eu no meio de uma explicação que necessitava de bastante atenção de todos, toca o celular da aluna, interrompendo todo um processo de desenvolvimento de uma idéia e prejudicando o andamento da aula. Mudei o tom do pedido e aconselhei aquela menina que, se objetivo dela não era o de estudar, então que procurasse outro local, que fizesse um curso à distância ou coisa do gênero, pois ali naquela sala estavam pessoas que queriam aprender’ e que o Colégio é um local aonde se vai para estudar. Então, a “estudante” quis argumentar, quando falei que não discutiria mais com ela.

Neste momento tocou o sinal e fui para a troca de turma. A menina resolveu ir embora e desceu as escadas chorando por ter sido repreendida na frente de colegas. De casa, sua mãe ligou para a Escola e falou com o vice-diretor da noite, relatando que tinha conhecidos influentes em Porto Alegre e que aquilo não iria ficar assim. Em nenhum momento procurou escutar a minha versão nem mesmo para dizer, se fosse o caso, que minha postura teria sido errada. Tampouco procurou a diretoria da Escola.

Qual passo dado pela mãe? Polícia Civil!… Isso mesmo!… tive que comparecer no dia 13/07/11, na 8.ª (oitava Delegacia de Polícia de Porto Alegre) para prestar esclarecimentos por ter constrangido (“?”) uma adolescente (17 anos), que muito pouco frequenta as aulas e quando o faz é para importunar, atrapalhar seus colegas e professores’. A que ponto que chegamos? Isso é um desabafo!… Tenho 39 anos e resolvi ser professor porque sempre gostei de ensinar, de ver alguém se apropriar do conhecimento e crescer. Mas te confesso, está cada vez mais difícil.

Sinceramente, acho que é mais um professor que o Estado perde. Tenho outras opções no mercado. Em situações como essa, enxergamos a nossa fragilidade frente ao sistema. Como leitor da tua coluna, e sabendo que abordas com frequência temas relacionados à educação, ”te peço, encarecidamente, que dediques umas linhas a respeito da violência que é perpetrada contra os professores neste país”.

Fica cristalina a visão de que, neste país:

  • NÃO PRECISAMOS DE PROFESSORES
  • NÃO PRECISAMOS DE EDUCAÇÃO
  • AFINAL, PARA QUE SER UM PAÍS DE 1° MUNDO SE ESTÁ BOM ASSIM

Alguns exemplos atuais:

• Ronaldinho Gaúcho: R$ 1.400.000,00 por mês. Homenageado pela “Academia Brasileira de Letras”…
• Tiririca: R$ 36.000,00 por mês. Membro da “Comissão de Educação e Cultura do Congresso”…

TRADUZINDO: SÓ O SALÁRIO DO PALHAÇO, PAGA 30 PROFESSORES. PARA AQUELES QUE ACHAM QUE EDUCAÇÃO NÃO É IMPORTANTE: CONTRATE O TIRIRICA PARA DAR AULAS PARA SEU FILHO.

Um funcionário da empresa Sadia (nada contra) ganha hoje o mesmo salário de um “ACT” ou um professor iniciante, levando em consideração que, para trabalhar na empresa você precisa ter só o fundamental, ou seja, de que adianta estudar, fazer pós e mestrado? Piso Nacional dos professores: R$ 1.187,00… Moral da história: Os professores ganham pouco, porque “só servem para nos ensinar coisas inúteis” como: ler, escrever, pensar,formar cidadãos produtivos, etc., etc., etc….

SUGESTÃO: Mudar a grade curricular das escolas, que passariam a ter as seguintes matérias:

  • Educação Física: Futebol;
  • Música: Sertaneja, Pagode, Axé;
  • História: Grandes Personagens da Corrupção Brasileira; Biografia dos Heróis do Big Brother; Evolução do Pensamento das “Celebridades”
  • História da Arte: De Carla Perez a Faustão;
  • Matemática: Multiplicação fraudulenta do dinheiro de campanha;
  • Cálculo: Percentual de Comissões e Propinas;
  • Português e Literatura: ?… Para quê ?…
  • Biologia, Física e Química: Excluídas por excesso de complexidade.

Está bom assim? … eu quero mais!…


ESSE É O NOSSO BRASIL …


Vejam o absurdo dos salários no Rio de Janeiro (o que não é diferente do resto do Brasil)

  • BOPE - R$ 2.260,00………………….. para …….. Arriscar a vida;
  • Bombeiro - R$ 960,00…………………para …….. Salvar vidas;
  • Professor - R$ 728,00…………………para …….. Preparar para a vida;
  • Médico - R$ 1.260,00………………….para …….. Manter a vida;

E o Deputado Federal?…..R$ 26.700,00 (fora as mordomias, gratificações, viagens internacionais, etc., etc., etc., para FERRAR com a vida de todo mundo, encher o bolso de dinheiro e ainda gratificar os seus “bajuladores” apaniguados naquela manobrinha conhecida do “por fora vazenildo”!).

IMPORTANTE:
Faça parte dessa “corrente patriótica” um instrumento de conscientização e de sensibilização dos nossos representantes eleitos para as Câmaras Municipais, Assembleias Estaduais e Congresso Nacional e, principalmente, para despertar desse “sono egoísta” as autoridades que governam este nosso maravilhoso país, pois eles estão inertes, confortavelmente sentados em suas “fofas” poltronas, de seus luxuosos gabinetes climatizados, nem aí para esse povo brasileiro. Acorda Brasília, acorda Brasil !…

P.S.: Divulgue logo esta carta para todos os seus contatos. Infelizmente é o mínimo que, no momento, podemos fazer, mas já é o bastante para o Brasil conhecer essa “pouca vergonha”. As próximas eleições estão chegando.


(*) - Físico e professor em Porto Alegre


E então??


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ser Juiz dos Pares

O caso do senador Demóstenes Torres se arrasta para o abismo do medo. Sendo instalado o Conselho de Ética que deve jugar seu caso, o problema consiste em encontrar o Relator do processo. Não existe candidato voluntário para o cargo. Deve-se recorrer a indicações de partidos.
Mesmo assim, a situação é complexa. O que se vai assistindo é que nem todos querem se colocar como juiz de um dos pares, levando a se pensar nas causas disso. Talvez, a possibilidade de que as investigações se convertam em escavações que podem trazer à tona cadáveres de outros escândalos. Aqueles, que muitos dos pares conhecem - e até mesmo ajudaram a encenar - mas fingem desconhecer, fazem de conta que não ocorreram, juram que não participaram.
Mais uma vez, a política está se mosrando como uma esfera apartada da moral e da ética.
Será que o mote vai se repetir?

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A descriminalização do aborto de anencéfalos

A discussão que domina o Supremo Tribunal Federal, na primeira metade do mês de abril, radica na descriminalização (ou não) do aborto de anencéfalos. Quer dizer, discute-se não tornar mais um crime a interrupção de gravidez, quando diagnosticado que o feto não possui parte (metade) ou todo o cérebro.
Alguns especialistas afirmam que o próprio termo empregado tem de ser discutido; que não faz sentido, sequer, falar em aborto, uma vez que não se pode afirmar a existência de vida em um ser humano sem cérebro, conforme palavras do Ministro Marco Aurélio Mello. Nesse caso, o que se deve discutir é a "interrupção de gravidez" ou "antecipação de parto".
Talvez seja o caso de se discutir, mais aprofundadamente, a dimensão - e a extensão - da vida humana. Mas essa discussão deve levar em consideração, igualmente, as demais pessoas envolvidas no drama que se desenrola. De modo especial, aquela que traz em seu ventre o ser marcado pela tragédia da anencefalia. Não se pode, sem mais, dizer que o ser gerado por humanos, uma vez desprovido de cérebro, não seja humano - e isso, mesmo em outros casos aberrantes, dos quais é rica a literatura médica. Não se pode, paradoxalmente, afirmar que esse ser humano, com uma limitação orgânica tão extrema, possa viver uma existência minimamente humana e digna.
A mãe, contudo, não pode ser obrigada a assumir uma situação que não escolheu, uma situação da qual foi vítima - vítima de uma tragédia paralela, quando não superior, ao risco de vida da própria mãe ou ao estupro. Em todos os casos, não houve possibilidade de escolha prévia, mas há responsabilidades e possibilidades de escolhas posteriores.
Não é o caso de se propugnar pelo aborto, pela interrupção da gravidez pura e simplesmente; é mais uma oportunidade, sim, para permitir ao sujeito autônomo a possibilidade de autodeterminação em face de uma tragédia que trará consequências com um "sim" ou com um "não".
As diretrizes e os valores religiosos têm sua importância. Quem adere consciente e fielmente a uma confissão religiosa assume mais profundamente determinadas posturas diante de dilemas morais, uma vez que não se coloca tão somente questões de caráter humanista. Mas, mesmo aqueles que não são religiosos podem ser "humanos, demasiadamente humanos", conforme destacou Nietzsche.
A lei deve proteger o indefeso, o inocente e deve promover a vida justa, digna, plena. Em um Estado Democrático de Direito, a lei é um instrumento de emancipação de indivíduos e grupos, o que implica em que a lei deve colocar parâmetros, restringindo o crime, e permitindo que a vida se manifeste dignamente. Para todos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Verão Brasileiro - I

Ainda sopram ventos na “Primavera Árabe”. Esses ventos ajudam a dissipar a fumaça de incêndios e barricadas. As feridas abertas no solo dos países onde se deram esses incêndios e onde se ergueram e arderam essas barricadas, porém, ainda levarão muito tempo para cicatrizar – se é que chegaram a sê-lo, totalmente.

Com as dores, o sangue e as lágrimas disseminados naqueles países forjaram-se lições; sobretudo a de que nada vem de graça. Muito menos a justiça.

Poderíamos, aqui no Brasil, aproveitar de graça, ao menos, as lições. Sobretudo a lição de que a política deve ser feita em favor do povo. Não é possível se pensar em uma classe de “servidores” públicos que se transmuta em “servidores do” público, no sentido de que se serve do público para se locupletar a si própria, constituindo-se em uma classe à parte da mesma sociedade que a elegeu e a quem prometeu representar.

Os descalabros e os escândalos provocados pela classe política vêm se constituindo, a cada dia mais, em uma ofensa aos brios e à honra da população. Não se pode mais compactuar com um grupo que faz do apadrinhamento, da troca de favores, dos conchavos, da falsidade e do autobenefício uma tônica de seu agir. Claro, não são todos os políticos que pautam seu agir por esses parâmetros. Mas isso não é um mérito: essa deveria ser a regra, sem exceções. Descoberta a transgressão, a punição.

Mas, quando os políticos honestos são coniventes com seus colegas criminosos – que se travestem de íntegros – é o caso de se pensar na possibilidade de correção de rumo do país. É o caso de se pensar em um "verão brasileiro".