Apontamos, em artigo anterior,
que a cultura política vigente no Brasil, e que se escora em uma longa tradição
do jeitinho, da malandragem, do apadrinhamento, produz consequências nefastas,
perversas. Uma dessas consequências é o uso da coisa pública como se fosse
privada, e a invasão da vida privada como se fosse pública. Para isso colaboram
os vários “reality shows – o que quer que se pretenda entregar por essa
etiqueta, pois no fundo o que se faz é publicizar ao extremo o privado.
Ora, alguns cientistas políticos
enxergam na obra “O Príncipe”, de
Maquiavel, uma proposição da política como uma atividade amoral. Sim: amoral, o
que implica distinguir de moral e imoral. Moral seria o conjunto de normas
vigentes em uma determinada sociedade; normas a partir das quais as condutas
individuais são tidas por certas ou erradas. Imoral seria uma conduta
considerada como moralmente negativa ou imprópria, a partir das normas vigentes
em uma sociedade específica. Já amoral seria uma atitude, uma ação, uma
situação que não se enquadra nesse critério. Ela é o que é, em si, sem
quaisquer referências externas – ainda menos ao bom ou ao mau moral. Nesse
sentido, Oscar Wild afirmava que a arte não é moral nem imoral, mas amoral.
Entender a política como uma
atividade amoral pode dar a entender que tudo o que faz não precisa ser
justificado, até mesmo porque a política seria uma estratégia, uma ferramenta
cujo fim é aquele proposto pelo Estado, pelo governante e, em sendo assim,
enquanto meio, estaria justificada – a ação política – pelo fim. Os fins
justificam os meios. E o meio é “aquilo que tem de ser feito”, inviabilizando
qualquer discussão, já que “tem de ser feito”, mesmo.
Ora, os escândalos que assolam a
política no mundo, com destaque para o Brasil, funcionam como uma aula
permanente, em que os assistentes aprendem que mentir é vantajoso, que honra é
para os fracos, que honestidade é para os covardes, que corrupção é algo
necessário à vida, e que em tudo existe uma como que “lei do mercado”, segundo
a qual ou se age em conformidade ou se é colocado de lado.
CPIs têm mostrado que o cinismo,
o escárnio, a falsidade rendem dividendos. Sim, a esperteza triunfa. E nós, no
meio acadêmico, vamos nos moldando a isso, admitindo que uma “colinha” aqui, um
“plagiozinho” ali são perfeitamente explicáveis dentro da dinâmica escolar.
Afinal, “quem não cola não sai da escola”. E, mais uma vez, a lição vem de
cima, já que provas não provam nada – isso, no âmbito político. E os
supostamente incriminados não raro são absolvidos pelos seus pares, que
compactuam dos mesmos vícios – isso, também, no âmbito político.