sábado, 26 de maio de 2012

O QUE A POLÍTICA NOS (DES)ENSINA – II

Apontamos, em artigo anterior, que a cultura política vigente no Brasil, e que se escora em uma longa tradição do jeitinho, da malandragem, do apadrinhamento, produz consequências nefastas, perversas. Uma dessas consequências é o uso da coisa pública como se fosse privada, e a invasão da vida privada como se fosse pública. Para isso colaboram os vários “reality shows – o que quer que se pretenda entregar por essa etiqueta, pois no fundo o que se faz é publicizar ao extremo o privado.
Ora, alguns cientistas políticos enxergam na obra “O Príncipe”, de Maquiavel, uma proposição da política como uma atividade amoral. Sim: amoral, o que implica distinguir de moral e imoral. Moral seria o conjunto de normas vigentes em uma determinada sociedade; normas a partir das quais as condutas individuais são tidas por certas ou erradas. Imoral seria uma conduta considerada como moralmente negativa ou imprópria, a partir das normas vigentes em uma sociedade específica. Já amoral seria uma atitude, uma ação, uma situação que não se enquadra nesse critério. Ela é o que é, em si, sem quaisquer referências externas – ainda menos ao bom ou ao mau moral. Nesse sentido, Oscar Wild afirmava que a arte não é moral nem imoral, mas amoral.
Entender a política como uma atividade amoral pode dar a entender que tudo o que faz não precisa ser justificado, até mesmo porque a política seria uma estratégia, uma ferramenta cujo fim é aquele proposto pelo Estado, pelo governante e, em sendo assim, enquanto meio, estaria justificada – a ação política – pelo fim. Os fins justificam os meios. E o meio é “aquilo que tem de ser feito”, inviabilizando qualquer discussão, já que “tem de ser feito”, mesmo.
Ora, os escândalos que assolam a política no mundo, com destaque para o Brasil, funcionam como uma aula permanente, em que os assistentes aprendem que mentir é vantajoso, que honra é para os fracos, que honestidade é para os covardes, que corrupção é algo necessário à vida, e que em tudo existe uma como que “lei do mercado”, segundo a qual ou se age em conformidade ou se é colocado de lado.
CPIs têm mostrado que o cinismo, o escárnio, a falsidade rendem dividendos. Sim, a esperteza triunfa. E nós, no meio acadêmico, vamos nos moldando a isso, admitindo que uma “colinha” aqui, um “plagiozinho” ali são perfeitamente explicáveis dentro da dinâmica escolar. Afinal, “quem não cola não sai da escola”. E, mais uma vez, a lição vem de cima, já que provas não provam nada – isso, no âmbito político. E os supostamente incriminados não raro são absolvidos pelos seus pares, que compactuam dos mesmos vícios – isso, também, no âmbito político.
Talvez seja a ocasião de mudar, pelo menos, o ritmo da música, para ver se a dança também muda. Em vez de Maquiavel, talvez apelar para Nietzsche, o qual afirma em sua obra “Genealogia da moral”: “Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.”